A esquizoanálise não possui uma metapsicologia formal como a psicanálise. Aliás, ela critica radicalmente a ideia de metapsicologia nos moldes tradicionais, justamente por considerar que toda tentativa de estruturar um modelo geral e universal da psique tende a normalizar, reduzir e capturar o desejo.
Embora critique a ideia de metapsicologia, a esquizoanálise constrói um conjunto de operadores conceituais que nos permitem compreender como a subjetividade funciona, se organiza e sofre. Esses operadores funcionam como uma espécie de “metapsicologia em movimento”:
1. Máquinas desejantes (ou máquina de produção do desejo)
• São os arranjos básicos do funcionamento da vida.
• Tudo o que vive deseja — e desejar, aqui, é produzir realidade, criar conexões, atravessar fluxos.
• A subjetividade não é movida por pulsões internas, mas por circuitos de desejo entre corpos, linguagens, objetos, territórios.
• O inconsciente, para a esquizoanálise, é uma máquina de produção — não um teatro da representação (como Freud propôs).
2. Agenciamentos
• A subjetividade se forma a partir de agenciamentos: combinações entre forças, corpos, signos, normas, instituições e afetos.
• Cada pessoa é uma multiplicidade de agenciamentos em constante mutação.
• Um agenciamento pode ser máquina de criação ou máquina de dominação, a depender de como as forças nele se articulam.
3. Fluxos e cortes
• A produção psíquica é vista como circulação de fluxos de desejo (fluxos afetivos, corporais, linguísticos).
• O sofrimento aparece quando esses fluxos são bloqueados, controlados, ou excessivamente codificados (como no modelo familiar edipiano).
• O corte (ou “registro”) organiza o fluxo, mas também pode capturá-lo — por isso, a clínica deve observar como cortar sem paralisar.
4. Territorialização / desterritorialização / reterritorialização
• A subjetividade se forma em territórios (modos de vida, hábitos, identidades).
• Quando um território se torna limitador, o desejo busca linhas de fuga — formas de se desterritorializar, isto é, escapar de formas rígidas de existir.
• A criação de novos territórios (reterritorialização) pode ser vital, ou pode se tornar uma nova prisão.
• O sofrimento psíquico aparece quando a pessoa está presa num território subjetivo que já não a sustenta, mas não consegue ainda fugir dele.
5. Subjetivação como processo (e não como estrutura)
• Não há um “sujeito” fixo. O que há são processos de subjetivação — formações provisórias que resultam de relações políticas, sociais, afetivas, corporais.
• A esquizoanálise se interessa menos por quem a pessoa “é”, e mais por como ela se compõe, o que a afeta, o que a aprisiona e o que a faz criar.
Conclusão: há uma metapsicologia em movimento
Embora rejeite a metapsicologia clássica da psicanálise, a esquizoanálise opera com uma espécie de ontologia dinâmica da subjetividade, composta por:
Psicanálise (Freud) Esquizoanálise (Deleuze e Guattari)
Pulsões (vida e morte) Máquinas desejantes e fluxos de desejo
Aparelho psíquico Agenciamentos e multiplicidades
Energia psíquica (libido) Intensidades e afetos
Repressão / recalque Captura / codificação
Estrutura psíquica (id, ego…) Processos de subjetivação e linhas de fuga
Inconsciente representacional Inconsciente como produção