Cronos e Kairós: Dois Tempos, Dois Mundos
Depois de ver que o tempo tem história, dois nomes gregos revelam dois modos opostos de habitar o tempo: o que se conta e o que se vive.
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Dois Nomes para o Tempo
Na Aula 1 vimos que o tempo é uma construção histórica e encontramos, no pensamento grego, dois nomes para ele: Cronos e Kairós. Agora aprofundamos essa distinção, porque ela não é um detalhe erudito, é uma chave para entender o nosso próprio mal-estar com o tempo.
Cronos é o tempo que se conta. Linear, mensurável, dividido em unidades iguais. É o tempo do relógio e do calendário, aquele que avança sempre na mesma direção e no qual uma hora vale exatamente o mesmo que qualquer outra hora.
Kairós é o tempo que se vive. O momento oportuno, qualitativo, a ocasião que não se repete. Não se mede em minutos: mede-se em intensidade, em pertinência, em saber reconhecer a hora certa.
Não são dois relógios diferentes, são duas formas de experiência. E a tese desta aula é precisa: a modernidade aprendeu a medir Cronos com extrema precisão e, no mesmo movimento, desaprendeu a reconhecer Kairós.
Pense em uma decisão importante da sua vida que dependeu de reconhecer o momento certo, e não da quantidade de tempo que você tinha. O que fez aquele instante ser o instante?
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Cronos: o Tempo que se Conta e se Esgota
Vimos na Aula 1, pela Teogonia de Hesíodo, que Cronos é o Titã que destrona o pai e, temendo a profecia de ser destituído por um filho, devora os próprios filhos assim que nascem. Convém reter a imagem na sua literalidade.
"E os grandes Titãs gerou a Gaia [...] e o jovem Cronos de curvo pensar, o mais terrível dos filhos, que ao próspero pai abominava."
(HESÍODO, 2005, p. 42, vv. 137-138)Há uma distinção que precisa ficar clara: o Titã Cronos (Κρόνος) e o tempo Chronos (Χρόνος) são, na origem, palavras diferentes, embora a tradição os tenha aproximado. ¹ Essa aproximação não é gratuita. O gesto de devorar os filhos é a imagem mítica mais exata de um certo modo de tempo: aquele que consome o que ele mesmo produz, que avança sem retorno, e no qual o futuro é engolido antes de chegar.
Transposto para a experiência, Cronos tem características reconhecíveis no nosso cotidiano.
- Linear: avança sempre na mesma direção, do antes para o depois.
- Quantitativo: existe para ser medido, contado, dividido.
- Homogêneo: cada unidade vale o mesmo, uma hora é uma hora, em qualquer circunstância.
- Irreversível: não volta, não se recupera, só se gasta.
- Mensurável: é o tempo do relógio, do calendário e, como vimos na Aula 1, da mercadoria.
Em quais áreas da sua vida você trata o tempo apenas como Cronos, algo que se gasta, se economiza ou se perde? O que essa contabilidade deixa de fora?
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Kairós: o Tempo Oportuno
Kairós é o reverso de Cronos. Duas fontes antigas o atestam, e vale conhecer as duas, porque uma fala do culto e a outra fala da figura.
A primeira é o culto. Pausânias, na Descrição da Grécia (V, 14, 9), registra que havia em Olímpia, junto à entrada do estádio, um altar dedicado a Kairós, e menciona que Íon de Quios, poeta do século V a.E.C., compôs um hino no qual Kairós é apresentado como o caçula dos filhos de Zeus. ² Faz diferença: ao colocá-lo entre os deuses, e como o mais novo, os gregos diziam que a oportunidade é algo enviado, que vem de fora e nos surpreende.
A segunda é a figura. Posidipo de Pela, num epigrama transmitido pela Antologia Grega (livro XVI, número 275), descreve a estátua de Kairós feita pelo escultor Lisipo, no século IV a.E.C. É a fonte literária mais antiga sobre a figura personificada do Kairós, e cada traço da estátua é uma tese sobre o tempo oportuno. ³
- Na ponta dos pés: está sempre correndo, nunca parado.
- Asas nos pés: voa com o vento, escapa com rapidez.
- Uma navalha na mão: o instante é cortante, mais afiado do que qualquer lâmina, divide o antes e o depois.
- Cabelo abundante na frente e nuca calva: pode ser agarrado quando se aproxima, mas, depois que passa, não há mais onde segurá-lo.
A lição da figura é direta: Kairós não dura. Ou se o reconhece e se o agarra no instante em que se aproxima, ou ele se foi. É o tempo qualitativo em estado puro, aquele em que nem todo instante é igual, porque existe o instante certo.
A imagem da nuca calva diz que a ocasião, depois de passar, não se agarra. Houve uma oportunidade que você só percebeu depois que ela já tinha passado? O que a tornou difícil de reconhecer a tempo?
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Kairós e a Lógica da Qualidade
Para entender a profundidade do conceito, recorremos a um estudo de referência, que aqui examinamos de forma crítica, não como autoridade final. Monique Trédé, em Kairos: l'à-propos et l'occasion (1992), rastreia a história semântica da palavra desde Homero. ⁴
O percurso é revelador. Em Homero, kairós designava um ponto crítico ou vulnerável do corpo, o lugar exato onde um golpe é mortal. Desse sentido espacial e concreto, a palavra passou a significar o ponto certo no tempo, o momento oportuno, a ocasião. E quando, no século V a.E.C., surgem na Grécia as primeiras ciências humanas, a medicina, a retórica e a política, dominar o kairós torna-se a chave do êxito: saber a hora certa de intervir, de falar, de agir.
Trédé chama esse movimento de um esforço por uma lógica da qualidade, num mundo que ainda não dominava a arte da medida. E é aqui que a oposição central deste curso se mostra inteira:
- Cronos é a lógica da quantidade: medir, contar, dividir, otimizar.
- Kairós é a lógica da qualidade: discernir o que é oportuno, aquilo que não se mede mas se reconhece.
Um limite a registrar nessa fonte: Trédé acompanha a palavra e a noção até o fim do século IV a.E.C. Os usos filosóficos posteriores do termo são outra discussão, que ela não cobre. A oposição quantidade versus qualidade, porém, já está plenamente formada nesse período, e é dela que o curso parte.
A medicina, a retórica e a política antigas viam no domínio do momento certo a chave do sucesso. Na sua profissão ou na sua vida, onde o êxito depende mais de reconhecer a hora certa do que de acumular tempo de trabalho?
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Quando Vivemos Só em Cronos
O que acontece com uma cultura que vive quase exclusivamente em Cronos? A resposta liga esta aula diretamente à anterior. Na Aula 1, ao tratar do tempo na psicanálise, vimos a teoria lacaniana do tempo lógico: entre o instante de ver e o momento de concluir existe o tempo para compreender, e a pressa patológica da modernidade tende a suprimir justamente esse tempo do meio. Suprimir o tempo de compreender é, em outras palavras, perder o kairós, o instante que pede elaboração e presença.
Hartmut Rosa dá a esse diagnóstico uma forma sociológica. Em Aceleração (2019), ele descreve uma cultura marcada por três acelerações simultâneas: a tecnológica, a do ritmo de vida e a das mudanças sociais. ⁵ O efeito combinado é uma fome permanente de tempo: tudo é cronometrado, medido e otimizado, e ainda assim a sensação é a de que nunca há tempo suficiente. Cronos triunfa, Kairós desaparece.
A consequência prática é importante e contraintuitiva. Recuperar Kairós não é fazer as coisas mais rápido, nem ganhar mais minutos no relógio. É o contrário: é reconhecer o instante que pede presença e desacelerar o suficiente para habitá-lo. O problema da aceleração não se resolve com mais velocidade.
Quando você sente que "não tem tempo", o que costuma faltar de fato: minutos no relógio (Cronos) ou a possibilidade de habitar plenamente os momentos (Kairós)? Descreva uma situação recente.
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Cronos e Kairós Lado a Lado
Para fixar a oposição antes da prática, vale ver os dois tempos comparados dimensão por dimensão.
| Dimensão | Cronos | Kairós |
|---|---|---|
| Natureza | Quantitativo | Qualitativo |
| Medida | Mensurável, o relógio | Não mensurável, a intensidade |
| Forma | Linear e contínuo | Pontual, o momento |
| Cada instante | Todos valem igual | Existe o instante certo |
| Direção | Irreversível | Oportunidade que passa |
| A pergunta que faz | Que horas são? | É a hora certa? |
| Na psicanálise (Aula 1) | Tempo cronológico | Tempo lógico, o momento de concluir |
O que fica desta aula
- Cronos e Kairós não são dois relógios, mas duas formas de experiência do tempo: a quantidade e a qualidade.
- Cronos é o tempo linear, mensurável e irreversível; sua imagem mítica é o Titã que devora os próprios filhos, em Hesíodo.
- Kairós é o tempo oportuno; as fontes antigas o atestam como divindade, em Pausânias e Íon de Quios, e como figura alada e efêmera, de cabelo na frente e nuca calva, no epigrama de Posidipo sobre a estátua de Lisipo.
- A passagem de ponto crítico do corpo a momento oportuno mostra o esforço grego por uma lógica da qualidade, segundo Trédé.
- A aceleração contemporânea, descrita por Rosa, é o triunfo de Cronos e a supressão de Kairós; recuperar o tempo qualitativo é o eixo prático do curso.
Cinco questões para verificar sua compreensão. Não há punição pelo erro: cada resposta errada é um convite para reler.
1. Qual conjunto de características define o tempo Cronos?
2. Na estátua de Kairós descrita por Posidipo, o que significa a nuca calva?
3. Segundo Pausânias, onde havia um altar de Kairós e quem o teria feito o caçula dos filhos de Zeus?
4. Segundo o estudo de Trédé, o que a palavra kairós significava em Homero, antes de querer dizer momento oportuno?
5. Para Rosa, qual é o efeito da aceleração contemporânea sobre a nossa experiência do tempo?
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Mapeamento Kairótico
Esta é uma prática de discernimento, não de produtividade. A ideia não é fazer mais coisas em menos tempo, é distinguir o que é Cronos, o tempo que se gasta, do que é Kairós, o momento que merece presença.
¹ Sobre a distinção e a posterior confusão entre Kronos (Κρόνος, o Titã) e Chronos (Χρόνος, o tempo), ver VERNANT, Mito e pensamento entre os gregos (1990), e a Aula 1.
² PAUSÂNIAS. Descrição da Grécia, V, 14, 9. O hino de Íon de Quios (c. 490 a 425 a.E.C.) a Kairós sobrevive apenas pela menção de Pausânias (fragmento 742, na edição Loeb dos fragmentos líricos).
³ POSIDIPO DE PELA. Epigrama sobre a estátua de Kairós (a Ocasião) feita por Lisipo. In: JESUS, Carlos A. Martins de (trad.). Antologia Grega: Apêndice de Planudes (Livro XVI), número 275. A estátua original de Lisipo (escultor do século IV a.E.C.) perdeu-se; é conhecida por descrições antigas e por cópias romanas.
⁴ TRÉDÉ-BOULMER, Monique. Kairos: l'à-propos et l'occasion. Paris: Klincksieck, 1992. Originalmente tese de doutoramento defendida na Sorbonne em 1987.
⁵ ROSA, Hartmut. Aceleração. São Paulo: Editora Unesp, 2019. Sobre o tempo lógico de Lacan e a pressa de concluir, ver a Aula 1.
Referências Bibliográficas
HESÍODO. Teogonia: Trabalhos e Dias. Tradução de Ana Elias Pinheiro e José Ribeiro Ferreira. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2005.
JESUS, Carlos A. Martins de (trad.). Antologia Grega: Apêndice de Planudes (Livro XVI). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra; São Paulo: Annablume, 2017.
PAUSÂNIAS. Description of Greece. Tradução de W. H. S. Jones. Cambridge, MA: Harvard University Press (Loeb Classical Library), 1926. v. II, livro V, 14, 9.
ROSA, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade. Tradução de Rafael H. Silveira. São Paulo: Editora Unesp, 2019.
TRÉDÉ-BOULMER, Monique. Kairos: l'à-propos et l'occasion. Le mot et la notion, d'Homère à la fin du IVe siècle avant J.-C. Paris: Klincksieck, 1992.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. Tradução de Haiganuch Sarian. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
LACAN, Jacques. O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada (1945). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, pp. 197-213.